De andada
Mudei de dentista. Essa é uma informação que só interessa a uma pessoa muito importante: eu mesma. Troquei a médica uó que o meu santo não batia COM o dela - na verdade o meu santo quase batia NO dela - por uma muito mais gentil. Talvez por causa disso, mas não vou credenciar somente a ela, fui para a última consulta muito mais motivada.
O negócio é que, para chegar lá, passei por tanto contratempo que se fosse a anterior eu ia chegar rodando a baiana (ou a paraibana), sem a megera ter culpa de nada. A bronca com a primeira é porque NUNCA me atendeu na hora marcada e a celebração com a atual é que ainda não me deixou esperando nem cinco minutos. Isso significa que ela tem vários pontos no meu bom clube.
Mas vamos aos contratempos que é o que faz graça nessa vida bandida.
Como estamos em véspera de carnaval, eu precisava saber dos créditos que ainda restavam no passe fácil e, eventualmente, reabastecê-lo para os dias de muitas idas e voltas que virão. Um trânsito de lascar me conduziu sobre os meus próprios pés por uma distância equivalente a 25 minutos de caminhada. Não sei o que isso significa em quilômetros, só sei que quanto mais andava, mais ficava feliz. Deslizando por entre os carros para alcançar a calçada e atravessando pontes lindas, cheias de ornamentos, eu cantava em voz alta, assoviava o que vinha na cabeça e tinha altos diálogos com pessoas imaginárias.
Mais trânsito, mais sinais fechados (nenhum para mim), muitas buzinas (nenhuma para mim também), apitos dos guardinhas e muitos sons. A primeira rua está liberada para carros e ônibus, mas tinha um bloco se concentrando, portanto, interdição nela também. E mais confusão. Do meio dessa rua o som mais bonito vinha de uma orquestra tocando um frevo daqueles de encobrir qualquer melodia de outro lugar. Continuo no meu itinerário cantando e acompanhando a música do bloco até ela esmaecer com a distância.
Adiante, outro bloco e outra rua bloqueada. (Bloqueada: rua com um bloco no meio.) Essa sim, coalhada de ônibus e carros sem ter para onde ir. Ali, uma outra orquestra entoava “A nossa vida é um carnaval / A gente brinca escondendo a dor” bela marcha com a qual só concordo com a primeira parte já que na hora da doer, dói tudo e a gente chora até não mais.
Avanço metro a metro e passam por mim dois homens conversando: “Aí no final você corta assim e é só costurar a fita...”. Uma coisa ótima já que ambos se enquadram totalmente no conceito ‘cafuçu’ com tudo que tiver direito.
Cruzar a ponte Duarte Coelho sem usar nadinha de calçada? E eu lá... Esnobando nas faixas livres. Lá estavam várias carrocinhas de CD pirata tocando todo ritmo que se possa imaginar, inclusive brega, que no meio do barulho ninguém me ouve cantar junto. Passam mocinhas e senhoras com suas tiaras de flores. Vão também por ali quatro passistas devidamente caracterizados. Têm pressa para fazer o passo, estrelas mais brilhantes da efêmera festa.
Sigo. Achei o banco aberto, levei os trocados da cerveja e da macaxeira. Também tinha crédito à vontade no passe fácil. No meio do gelo baiano que divide as pistas, dou passagem a um guri numa bicicleta e ele me manda um sorriso, prontamente retribuído por mim. (Um segundo depois penso que ele podia ser assaltante, mala, cheira-cola, trombadinha, mas isso - o pensar - só em outro dia, porque hoje é festa.)
Cheguei ao consultório cedíssimo para a hora marcada, mas era assim ou correr o risco de atrasar muito. Nunca se sabe. A doutora simpática termina o serviço dela e me diz para passar lá dentro de seis meses. Saio na hora que devia estar chegando e esse é um motivo de grande regozijo da minha parte. Impressionante como as ruas do bairro não têm um pé de gente circulando. Ali tive medo de verdade. Se acontecesse alguma coisa, não tinha nem por quem dar um grito que a vizinhança nunca ia ouvir das suas fortalezas. Como eu sempre digo: antes a rua vazia do que com alguém assustador.
Importante é que essa deve ter sido a primeira vez que eu não olhei para a recepcionista com vontade de matá-la. Falei direitinho e se brincar até fui agradável. Tudo muda no funcionamento do mundo do Recife em época de carnaval e, pelo jeito, no do meu mundo também.
:: ::
Por que cargas d'água Fátima Bernardes pergunta a Beatriz Castro qual é a maior atração do carnaval de Olinda?
Claro que são as pessoas, cara!
O negócio é que, para chegar lá, passei por tanto contratempo que se fosse a anterior eu ia chegar rodando a baiana (ou a paraibana), sem a megera ter culpa de nada. A bronca com a primeira é porque NUNCA me atendeu na hora marcada e a celebração com a atual é que ainda não me deixou esperando nem cinco minutos. Isso significa que ela tem vários pontos no meu bom clube.
Mas vamos aos contratempos que é o que faz graça nessa vida bandida.
Como estamos em véspera de carnaval, eu precisava saber dos créditos que ainda restavam no passe fácil e, eventualmente, reabastecê-lo para os dias de muitas idas e voltas que virão. Um trânsito de lascar me conduziu sobre os meus próprios pés por uma distância equivalente a 25 minutos de caminhada. Não sei o que isso significa em quilômetros, só sei que quanto mais andava, mais ficava feliz. Deslizando por entre os carros para alcançar a calçada e atravessando pontes lindas, cheias de ornamentos, eu cantava em voz alta, assoviava o que vinha na cabeça e tinha altos diálogos com pessoas imaginárias.
Mais trânsito, mais sinais fechados (nenhum para mim), muitas buzinas (nenhuma para mim também), apitos dos guardinhas e muitos sons. A primeira rua está liberada para carros e ônibus, mas tinha um bloco se concentrando, portanto, interdição nela também. E mais confusão. Do meio dessa rua o som mais bonito vinha de uma orquestra tocando um frevo daqueles de encobrir qualquer melodia de outro lugar. Continuo no meu itinerário cantando e acompanhando a música do bloco até ela esmaecer com a distância.
Adiante, outro bloco e outra rua bloqueada. (Bloqueada: rua com um bloco no meio.) Essa sim, coalhada de ônibus e carros sem ter para onde ir. Ali, uma outra orquestra entoava “A nossa vida é um carnaval / A gente brinca escondendo a dor” bela marcha com a qual só concordo com a primeira parte já que na hora da doer, dói tudo e a gente chora até não mais.
Avanço metro a metro e passam por mim dois homens conversando: “Aí no final você corta assim e é só costurar a fita...”. Uma coisa ótima já que ambos se enquadram totalmente no conceito ‘cafuçu’ com tudo que tiver direito.
Cruzar a ponte Duarte Coelho sem usar nadinha de calçada? E eu lá... Esnobando nas faixas livres. Lá estavam várias carrocinhas de CD pirata tocando todo ritmo que se possa imaginar, inclusive brega, que no meio do barulho ninguém me ouve cantar junto. Passam mocinhas e senhoras com suas tiaras de flores. Vão também por ali quatro passistas devidamente caracterizados. Têm pressa para fazer o passo, estrelas mais brilhantes da efêmera festa.
Sigo. Achei o banco aberto, levei os trocados da cerveja e da macaxeira. Também tinha crédito à vontade no passe fácil. No meio do gelo baiano que divide as pistas, dou passagem a um guri numa bicicleta e ele me manda um sorriso, prontamente retribuído por mim. (Um segundo depois penso que ele podia ser assaltante, mala, cheira-cola, trombadinha, mas isso - o pensar - só em outro dia, porque hoje é festa.)
Cheguei ao consultório cedíssimo para a hora marcada, mas era assim ou correr o risco de atrasar muito. Nunca se sabe. A doutora simpática termina o serviço dela e me diz para passar lá dentro de seis meses. Saio na hora que devia estar chegando e esse é um motivo de grande regozijo da minha parte. Impressionante como as ruas do bairro não têm um pé de gente circulando. Ali tive medo de verdade. Se acontecesse alguma coisa, não tinha nem por quem dar um grito que a vizinhança nunca ia ouvir das suas fortalezas. Como eu sempre digo: antes a rua vazia do que com alguém assustador.
Importante é que essa deve ter sido a primeira vez que eu não olhei para a recepcionista com vontade de matá-la. Falei direitinho e se brincar até fui agradável. Tudo muda no funcionamento do mundo do Recife em época de carnaval e, pelo jeito, no do meu mundo também.
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Por que cargas d'água Fátima Bernardes pergunta a Beatriz Castro qual é a maior atração do carnaval de Olinda?
Claro que são as pessoas, cara!


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