Várzea. Sempre.

Quem dera ser um caracol e carregar a minha própria casa por aí.
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- Alô?
- Sobre esse anúncio do apartamento...
- Sim. Ele fica no edifício Módulo. Você sabe qual é?
- Sei sim.
(A voz da mulher vai a BG e eu já nem escuto o resto.)
- O aluguel fica por ... reais, o condomínio ... reais, água...
- Obrigada.
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- Sim, posso ir com a chave para você ver.
- Até lá, então.
- Ele foi desocupado há pouco tempo. Depois foi todo pintado novamente.
- Sei. Como é a vizinhança?
- Eu não sei te dizer com certeza, mas é bom perguntar isso porque por aqui tem uns apartamentos que são casas de massagem.
- É verdade.
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- Boa tarde.
- Pode entrar. A chave não está aqui agora. Mas veja o meu que é semelhante ao outro. A gente não quer grupo de pessoas para dividir porque basta uma desorganizada para atrapalhar as outras.
- É grande mesmo. A senhora é a síndica?
- Sou. O índice de inadimplência é muito alto. E falta água. Aqui só chega dia sim, dia não.
- Tá certo. Qualquer coisa, estou com o seu número.
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- Tem um aqui no sétimo andar.
- Posso ver?
(Elevador altamente suspeito e só vai até o sexto.)
- Por aqui. São cinco por andar, mas esse fica só ele.
(Subindo as escadas.)
- Ele precisa de uns reparos, mas é ótimo.
- Muito obrigada.
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Os problemas são muitos: pisos de taco – criadouro de monstros avermelhados e eventualmente voadores - elevadores prestes a parar entre os andares, escadas sinistras, vizinhança suspeita, janelas sem grades, nada de área de serviço, lugar para secar roupa nem pensar, barulho infernal das ruas... E se os porteiros que estavam com as chaves antes fizeram cópias? (Esse pensamento nunca me deixou.)
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A Praça da Várzea tem palmeiras onde canta o sabiá.


1 Comments:
tem jeito não, pô. tu vai morar lá pra sempre :)
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