sábado, dezembro 17, 2005

Aventuras gastronômicas


Aprendi muito cedo que comida não surge na mesa na hora da fome. Por ‘muito cedo’ entenda-se entre oito e nove anos quando me aventurava a fazer uns biscoitinhos cujas receitas vinham impressas nas embalagens de Maizena® (sim, aqui é permitido merchandising.). Com os pais no trabalho e os irmãos na escola, passava as tardes sozinha, em casa, estudando. O problema era a hora crucial em que o estômago começava a reclamar pelo gasto de nutrientes sem reposição. Aí começava uma odisséia pelos armários, forno, geladeira, qualquer abrigo de comestíveis. Na ausência de algo pronto, mãos aos ingredientes. Foram muitas experiências, umas davam certo, outras nem tanto.

Podia ter sido diferente, mas as aventuras na cozinha não deixaram nenhum refinamento gastronômico na criança e, menos ainda, na adulta. Tanto que um feijão com arroz, literalmente, já resolve uma urgência. Imagina aquela fava com charque... aí já é a sofisticação máxima.

Por essas coisas, quando chego ao Spoleto (vou ganhar dinheiro com tantas marcas aqui) e me apresentam 14 massas, com oito ingredientes e seis molhos, é a perdição. Lá estou novamente com oito anos e uma cozinha cheia de possibilidades. Um momento onde a combinação dos sabores é o que menos pesa na escolha, o importante é fazer algo para se demorar no estômago pelas próximas cinco horas.

Tadinhos dos funcionários da casa, para esse tipo de freguês não precisavam perder tantas horas naqueles treinamentos de como tratar bem o cliente. A interação com eles é mais um capítulo da trajetória. A falta de lógica da minha escolha chama atenção da atendente, que pergunta “frango e camarão?”. Ao que prontamente é respondida “sim, isso mesmo”. Depois dela, o chef vem solicitamente preparar o prato e à medida que ouve o ditado para a mistura, tece comentários como “que delícia”, “ótima escolha”, “bela combinação”. Ele só pode estar tirando onda da minha cara.

A referência ao restaurante veio por conta de um sábado de poucas opções na minha própria cozinha. Uma última porção de espaguete, um resto de molho de tomate congelado, uma fatia de presunto, uma cebola e uma cenoura - também as últimas na gaveta de frutas, legumes e verduras da geladeira, que há muito tempo não abriga as três coisas ao mesmo tempo.

Começou então o diálogo imaginário com o chef:
- Qual será a massa, senhora?
- Espaguete. (cliente com cara de abuso, claro)
- Humm, que delícia! Ingredientes...
- Cebola, cenoura e presunto.
- Ótima escolha! Diga o molho.
- De tomate.
- Bela combinação!
(Adianto de pronto que ficou muito ruim. Não experimente.)

O slogan do Spoleto é “como você quer” e, no meu caso, poderia ser complementado com “não importa a gororoba que você faça”. Em resumo, o gosto pode ser bom ou nem tão bom, o sabor não é o que está em jogo. O que vale é não desmaiar no meio da rua e muito menos ir para o hospital tomar soro. A lógica não tem refinamento nenhum mesmo, é bruta e crua, já dizia Sócrates, na Antiga Grécia.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

porra, molho de tomate com cenoura não podia prestar nem aqui nem no spoletto que pariu.

19 dezembro, 2005 09:59  

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