segunda-feira, janeiro 09, 2006

Futebol não rima com acidente

Começou o campeonato pernambucano de futebol de 2006. Impossibilitada de ir ver o Santa Cruz jogando ao vivo fiquei de casa ouvindo rádio e, claro, sofrendo. Sim, porque ouvir e imaginar é muito mais doloroso do que ver o lance lá no estádio. Cada um com a sua emoção.

Entrariam em campo a barbie, a coisa e o Santinha todos ao mesmo tempo, ontem, domingo, 16 horas. Para os jogos, está valendo a regra do Futebol Solidário, um programa que permite troca de ingresso por um quilo de alimento. Como ninguém quer perder a oportunidade, e também não tem dinheiro, muitos (mas muitos mesmo) optam por essa alternativa.

Comecei a ouvir o rádio logo cedo da tarde. Não sei se foi exagero dos locutores, mas quando falaram do tumulto que se formou num dos locais de jogo já comecei a prestar mais atenção no que se passava. Eles estavam em polvorosa, narrando cenas as mais tristes. Torcedores se debatiam para entrar num campo de pequeno porte, sem capacidade para todos eles e, menos ainda, estrutura de acesso para tanta gente. Ali se enfrentariam Estudantes e Sport.

Fiquei particularmente tocada pelo depoimento de um médico experiente em partidas de futebol dizendo nunca ter visto coisa parecida. Ele falava de dois adolescentes em estado grave que tinham fratura na cabeça e estavam tendo convulsões. O que era somente uma idéia na minha imaginação se confirmou quando vi as reportagens sobre os jogos, pela televisão, à noite. Bichinhos dos meninos que tentavam chegar ao campo para assistir à coisa jogar. Chorei.

Hoje, um dos jornais locais entrevistou um dirigente da Federação Pernambucana de Futebol sobre o acidente gravíssimo acontecido no jogo em que saíram feridos, além dos dois meninos, quase 20 pessoas. Ele defendeu a instituição, falou da assistência que será dada aos feridos e justificou o local escolhido para o jogo.

O curioso dessa história toda foi um rosto de contentamento que apareceu na reportagem. Enquanto estavam sendo gravados os corredores do hospital, uma mulher que não deu depoimento foi apresentada na matéria como assistente social da Federação. Na fala desse dirigente ressaltou um detalhe: “a assistente social foi contratada pela Federação e vai acompanhar as famílias dos dois rapazes”. Oxente! A mulher surgiu por causa dos problemas? Se não foi, é o que aparenta e talvez explique aquele ar feliz dela quando deveria estar, se não abalada, pelo menos solidária com os garotos. É a tristeza de uns, fazendo a felicidade de outros.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

barbie, coisa... violência sempre. o que mais se pode esperar de uma sociedade que nem a nossa?

10 janeiro, 2006 10:13  

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