quarta-feira, setembro 29, 2010

O que é a natureza


Feriados prolongados são períodos favoráveis a pequenas viagens para várias pessoas, principalmente obstetras. A ausência momentânea desses profissionais gera uma impressionante repressão de demanda por nascimentos. Daí decorre uma alta da natalidade no primeiro dia útil pós-feriadão. E no dia seguinte também, já que os blocos cirúrgicos não dão conta de tanto nascimento de uma vez.

Bastou a recomendação da médica para Ana ficar de repouso no feriadão, porque ela estaria fora da cidade, e João resolveu que deveria estar fora da barriga. Primeiro, deu um jeito de esvaziar um pouco o líquido ao redor dele. Depois, foi se encaminhando para facilitar os procedimentos do parto.

Passados dois dias de monitoramento regular, e terminado o feriado, a médica chegou de viagem e fez o parto.

O hospital parecia a feira de Caruaru tamanho o movimento. Câmeras, celulares e máquinas fotográficas de todos os portes registravam os iniciantes nesta vida.

E viva o João!

Falando em vida - Não se nasce mulher, torna-se. Ai, ai, Simone de Beauvoir. Pois Isadora nasceu mulher totalmente. Eis que a pediatra sai da sala de cirurgia com a bebê, mostra para a família toda e leva para fazer os primeiros cuidados. Ou segundos. Arrumou e colocou a bichinha em um dos berços e ela iniciou o primeiro choro de mulher.

Alguma coisa ali não estava de acordo com as expectativas de Isadora. E ela reclamou. Chorava sem parar e sem se importar com a plateia do outro lado do vidro do berçário, muito menos com os bebês ao redor dela. Chora, Isadora, chora. Esperneia, Isadora. Em poucos instantes a configuração do futuro estaria completa.

Depois dela, a equipe médica trouxe Luiz Eduardo. Era o bebê com a maior torcida da noite. E que família do barulho. Flashes, flashes e lá foi o bebê para ser cuidado também. Foi posto ao lado de Isadora. E ela lá chorando, chorando, chorando. Luiz Eduardo, acordado, olhava o teto, mexia pernas e braços. E bocejava. Se crescido fosse, ele diria “cala a boca, mulher”. Ou, simplesmente, faria o que a sua maturidade de 18 minutos sugeria: bocejar.

Uma cena linda e cheia de demonstrações do vir a ser a que todos estamos sujeitos. Chorei deveras e ainda marejam meus olhos quando lembro da brava e comovente Isadora.