Cada cabeça um mundo e uma sentença

O mês vai chegando ao fim levando com ele mais uma edição do Janeiro de Grandes Espetáculos, para quem está em Recife. Este ano, um fato inusitado trouxe uma dorzinha de cabeça à produção do evento. Uma mãe levou a filha de cinco anos para assistir a espetáculos com classificação indicativa um tanto maior do que a idade dela. Será que não tinha ninguém para cuidar da menina enquanto a mãe ia ao teatro? Será que a mãe tinha somente estas oportunidades para ver as peças? Será que as duas também estiveram nos teatros para ver as montagens infantis da programação? Será que ela fez outros roteiros de criança para as férias da guria? Fato é que a confusão se tornou pública porque a mulher argumentou que, uma vez sob responsabilidade dela, a menina ia ver sim os conteúdos adultos dos espetáculos, recorrendo à justiça e tudo mais. Babado.
Lembrei de tanta coisa.

Uma vez, presenciei um espectador levantar e sair arrastando duas crianças pelo braço. Ainda ouvi quando ele resmungou: “vou meter um processo nessa espelunca”. A peça, Deus Danado, classificada para 12 anos, continuou sem maiores contratempos e com os nus da marcação. Mesmo com a movimentação, ele foi discreto. Quando terminou, fui ver a classificação indicativa e achei que 12 anos era cedo mesmo para o conteúdo.
Pensei que poderia ser eu no lugar do cidadão precisando me explicar para as crianças. Complicado.
Levei a minha sobrinha algumas vezes ao teatro: Poemas esparadrápicos, O pequeno grão de areia, e mais algumas coisas que não lembro. Paramos a brincadeira quando fui morar em outro bairro. O processo todo ficava cansativo para ambas.
Mas continuo vendo peças para pequenos. Acho uma graça. Começo a me divertir antes mesmo de qualquer encenação. É tão comovente a formação (ou não) das futuras plateias. Depois vêm as reações e interações. Muito bonitinhos. Meus olhos enchem dágua.

Quando Historinhas de dentro entrou em cartaz tive uma boa discussão com um amigo envolvido na peça. “Por que os textos infantis trazem de maneira recorrente perguntas como ‘de onde eu vim?’, ‘como eu nasci?’?”. Quando elas acontecem, fico me perguntando se eu tivesse que responder caso a minha sobrinha virasse para me perguntar algo assim. Ia dizer: depois você pergunta a sua mãe. Sem titubear. O mais simbólico desses espetáculos trazia uma sequência toda suspensa do chão, comunicando-se por meio de acrobacias em tecidos feitas por uma dupla. Muito sutil e delicada, aquela parte da peça só falava a crianças movimentos, cores e luzes. Para os adultos dizia muito mais e lindamente. Sem palavra alguma.
São alternativas de expressão.

Penso que explorar tanto isso nos textos meio que antecipa o tema para crianças que nem tinham atentado ainda. Por outro lado, pode inclusive contribuir para aqueles que já fizeram suas perguntas e deixaram os pais gaguejando. Enfim, cada um com as suas demandas. Mas ainda penso que a mãe vê textos para a mãe, e menina de cinco anos vê textos para meninas de cinco anos.


1 Comments:
Amiga, super concordo com você. Criancinhas de cinco anos precisam assistir "teatrinhos" para a sua idade, ne não?
É que mãe é quem oferece educação (no sentido literal da palavra) e não aquela que dá a luz, entendesse?
O que me deixa mesmo passada é assistir ao senso comum da sociedade achando tudo isto MUITO natural.
Ah me poupe :-(
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