Do direito de perambular
“A ‘boa vida’ é a vida em movimento, mais precisamente o conforto de ter confiança na facilidade com que é possível mover-se caso ficar não mais satisfaça”. Linhas, como belas flores, colhidas em Globalização – as conseqüências humanas, de Zygmunt Bauman. Leitura da minha recomendação ampla, geral e irrestrita.
Se Bauman trata do assunto visualizando o mundo inteiro, que diria se conhecesse a nossa realidade e falasse se dirigindo somente ao Brasil? Aqui mesmo, onde diferenças regionais constroem barreiras inicialmente em tom de brincadeira, mas sempre postas a sério nas relações pessoais e profissionais, e continuam permeando o nosso ‘mover-se’.
Nos últimos dias, alguns acontecimentos mostraram que continuam fortes certas distinções entre as pessoas, mesmo depois de tantas idas e vindas de brasileiros a perambular por entre os seus estados. A Folha de S.Paulo publicou uma matéria apontando as dificuldades dos paulistas vivendo em Florianópolis, vítimas de pichações e hostilidades na UFSC.
Inscrições em portas de banheiro expõem o que os nativos chamam de "invasão": "Os paulistas são os nordestinos de Floripa", alguém escreve. "Só que eles só dominaram favelas e nós vamos dominar tudo", alguém responde.
Quem responde é tão vítima quanto os nordestinos, mas já carrega na tinta também a sua distinção. E vai se formar lá mesmo, na UFSC, para depois ter brilhantes idéias como a de uma agência de propaganda que criou um núcleo low income para estudar a classe C/D. Assim mesmo, uma classe no meio do caminho entre ser nenhuma das duas.
O site da agência diz que o mergulho na classe será feito “buscando vivências que vão além de informações científicas”. Vão fazer matrícula em cursos de cabeleireiros, freqüentar as periferias e as reuniões das vendedoras porta-a-porta, para registrar e fotografar cada experiência. Um verdadeiro safári. Constava ainda nessas atividades visita ao Centro de Tradições Nordestinas e fornecimento de informações de uma agência parceira sediada no Nordeste, retirado do site após algumas discussões.
Quando se fala em low income o Nordeste é a grande vedete dos desinformados brasileiros mesmo. E prossegue em outras opiniões como uma matéria publicada no Bluebus, sobre o novo site do Clio. A idéia do site é baseada em uma suposta Creative Liberation Intelligence Organization que procura trabalhos de pessoas que “pensem de maneira perigosa, inovadora, não-convencional em relação à mídia e, certamente, adotando as últimas tecnologias”, seriam os criativos de uma chamada Próxima Onda.
A autora fala do conteúdo, da repercussão, e escorrega no próprio preconceito: “para ver e se incomodar com a ferramentinha chamada IdeaTracker, ou, buscador de idéias. Mostra um mapa-múndi com áreas marcadas de onde estariam vindo as idéias da tal Próxima Onda. A área brasileira marcada é bem pequena e, surpreendam-se, apesar do mercado publicitário brasileiro estar concentrado no Sudeste, a única área que aparece pintada no IdeaTracker é o Nordeste. Tudo bem, que tipo de idéia será que a tal organização secreta está buscando mesmo?”.
Perguntaríamos nós, que estamos tão acostumados a brincar de comparar sotaques. Por que, minha querida, “se incomodar” ou “surpreendam-se”? Quem sabe o Sudeste tenha saturado e viva das mesmas idéias há décadas? Talvez esteja no Nordeste, com todas as limitações a que está condicionado, esse jeito perigoso, inovador e não-convencional de fazer as coisas e mostrá-las ao mundo, até mesmo sem passar pelo Sudeste.
Perambulemos, pois, lembrando que somos e carregamos muito mais do que um local onde provisoriamente fizemos uma parada estratégica.
Se Bauman trata do assunto visualizando o mundo inteiro, que diria se conhecesse a nossa realidade e falasse se dirigindo somente ao Brasil? Aqui mesmo, onde diferenças regionais constroem barreiras inicialmente em tom de brincadeira, mas sempre postas a sério nas relações pessoais e profissionais, e continuam permeando o nosso ‘mover-se’.
Nos últimos dias, alguns acontecimentos mostraram que continuam fortes certas distinções entre as pessoas, mesmo depois de tantas idas e vindas de brasileiros a perambular por entre os seus estados. A Folha de S.Paulo publicou uma matéria apontando as dificuldades dos paulistas vivendo em Florianópolis, vítimas de pichações e hostilidades na UFSC.
Inscrições em portas de banheiro expõem o que os nativos chamam de "invasão": "Os paulistas são os nordestinos de Floripa", alguém escreve. "Só que eles só dominaram favelas e nós vamos dominar tudo", alguém responde.
Quem responde é tão vítima quanto os nordestinos, mas já carrega na tinta também a sua distinção. E vai se formar lá mesmo, na UFSC, para depois ter brilhantes idéias como a de uma agência de propaganda que criou um núcleo low income para estudar a classe C/D. Assim mesmo, uma classe no meio do caminho entre ser nenhuma das duas.
O site da agência diz que o mergulho na classe será feito “buscando vivências que vão além de informações científicas”. Vão fazer matrícula em cursos de cabeleireiros, freqüentar as periferias e as reuniões das vendedoras porta-a-porta, para registrar e fotografar cada experiência. Um verdadeiro safári. Constava ainda nessas atividades visita ao Centro de Tradições Nordestinas e fornecimento de informações de uma agência parceira sediada no Nordeste, retirado do site após algumas discussões.
Quando se fala em low income o Nordeste é a grande vedete dos desinformados brasileiros mesmo. E prossegue em outras opiniões como uma matéria publicada no Bluebus, sobre o novo site do Clio. A idéia do site é baseada em uma suposta Creative Liberation Intelligence Organization que procura trabalhos de pessoas que “pensem de maneira perigosa, inovadora, não-convencional em relação à mídia e, certamente, adotando as últimas tecnologias”, seriam os criativos de uma chamada Próxima Onda.
A autora fala do conteúdo, da repercussão, e escorrega no próprio preconceito: “para ver e se incomodar com a ferramentinha chamada IdeaTracker, ou, buscador de idéias. Mostra um mapa-múndi com áreas marcadas de onde estariam vindo as idéias da tal Próxima Onda. A área brasileira marcada é bem pequena e, surpreendam-se, apesar do mercado publicitário brasileiro estar concentrado no Sudeste, a única área que aparece pintada no IdeaTracker é o Nordeste. Tudo bem, que tipo de idéia será que a tal organização secreta está buscando mesmo?”.
Perguntaríamos nós, que estamos tão acostumados a brincar de comparar sotaques. Por que, minha querida, “se incomodar” ou “surpreendam-se”? Quem sabe o Sudeste tenha saturado e viva das mesmas idéias há décadas? Talvez esteja no Nordeste, com todas as limitações a que está condicionado, esse jeito perigoso, inovador e não-convencional de fazer as coisas e mostrá-las ao mundo, até mesmo sem passar pelo Sudeste.
Perambulemos, pois, lembrando que somos e carregamos muito mais do que um local onde provisoriamente fizemos uma parada estratégica.


3 Comments:
minha nossa senhora... baixa um pouquinho o nível pra eu poder entender... :P
Verinha
Até a vitória, sempre.
Neide
Oia Verinha,
se eu já não te entendendo quando estou na ativa e pensando em coisas sérias que dirá agora de férias e com a cabeça nas nuvens.
Fala sério, Amiga..
Estas inteligente demais...
Beijos,
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