sábado, maio 31, 2008

Assim falou Zé de Cazuza

Ele é pai da dupla Miguel Marcondes e Luís Homero, líderes da banda Vates e Violas. É um dos poetas mais citados quando o assunto é memória e, sendo a memória o principal recurso na poesia de repente, Zé de Cazuza se torna referência natural. Tudo porque corre por aí a informação que ele tem decoradas rimas de grandes embates que assistiu lá por volta dos seis anos de idade, o que é um feito e tanto para alguém nascido em 1929.

Dia desses, em um programa de televisão, a repórter perguntou como era essa história de saber as cantorias de um passado tão longínquo e tal. Ele respondeu com uma travessura típica do jeito Zé de Cazuza de ser: “depois que inventaram o gravador, eu deixei de decorar versos”. E é assim.

A primeira vez que fui entrevistá-lo, não consegui muita coisa. Era um festival de cantadores em Ouro Velho, na Paraíba. Conversei com quase todos que estavam previstos na minha pesquisa e já deixei outras falas agendadas, mas com ele mesmo não rendeu bem.

Pouco tempo depois, já em um evento em São José do Egito, Pernambuco, abordei Zé de Cazuza: “lembra da cantoria em Ouro Velho, da pesquisa? Pode conversar um pouquinho agora?”. Ele foi super solícito e começou a oferecer alguma resposta, de fato, ao que eu já vinha perguntando desde o primeiro contato. A certa altura, já se dando por satisfeito em relação ao assunto, me pergunta “tu não bebe nada, não?”. De verdade, está tudo gravado. Como também está gravada a minha resposta com uma cara simpaticíssima -tava simpática mesmo, não é ironia- “é que agora estou trabalhando”. Já tinha sido informada que ele diria isso alguma hora.

Em um São João de Monteiro lá estava ele para prestigiar a apresentação dos Vates. Passeou, conversou, ofereceu cerveja e comentou sobre o show, claro. “Essa banda tem muitos músicos. Para ganhar dinheiro mesmo, os meninos têm que trabalhar dobrado”, diagnosticou.

Um dia desses fiquei sabendo que a bebida entrou na vida dele já bem tarde. Tarde mesmo, tipo quase aos 60 anos. A história tinha que vir com uma justificativa à altura e ao estilo do protagonista. Diz ele que observando os companheiros, via que quanto mais bebiam, mais faziam versos bonitos e melhores. É um danado.

E assim segue. Vai morando no São Francisco, zona rural da cidade da Prata, na Paraíba, e de lá saindo para prestigiar os eventos por aí. É autor do livro Poetas e(n)cantadores, participa de CDs e declama, declama, declama.