domingo, abril 09, 2006

Participação que não se aprende na escola


Na última disciplina do mestrado li muita coisa sobre o passado recente do Brasil, que vem a ser a minha história também. Vejamos. Nessa foto aí eu tinha entre seis, sete anos. Posso assegurar que estava com a personalidade totalmente pronta nesse tempo. Sabia das coisas que estavam acontecendo no país e tinha minha opinião sobre elas. Sempre fui de participar e comecei cedinho.

A disciplina foi na turma de sociologia e a partir da primeira aula já fiquei impressionada com o discurso da professora. Excepcional, a mulher. As leituras foram conduzidas com foco em comunicação, mas, dentro de um argumento bem maior, discutimos também o contexto político e econômico do Brasil no começo da abertura política. Justamente o que li nesses dias me fez lembrar das coisas que eu não entendia bem, mas estava por dentro enquanto ainda era só uma criança.

Um dos textos falava sobre o “pacote de abril”, um plano de contenção que o governo lançou para segurar os investimentos sociais tentando equilibrar as finanças do país. - Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência. - Como a maioria das meninas, eu brincava de casinha. Pois em todas as minhas casinhas tinha um objeto representando o “pacote de abril”. Lembro que alguns desses objetos eram uma caixa de fósforos ou uma latinha vazia de Vick Vaporub. Sempre havia um lugar para o tal pacote na minha decoração.

Alguns anos depois, vieram as primeiras eleições de grande porte – prefeito, deputado, governador. Começava a deixar de existir o sistema de indicações, quando éramos governados por políticos biônicos. E eu lá... Completamente atuante, tinha opinião sobre a disputa, sobre os candidatos e discutia com as pessoas com muita seriedade. Ouvia o que podia nos comícios, acompanhava o movimento das pessoas no dia das eleições e distribuía muitas cédulas com o ‘meu’ voto. A apuração era feita na prefeitura e, de tempos em tempos, um boletim era divulgado num carro de som na frente do prédio. A prefeitura é colada com o colégio que eu estudava e na hora do recreio lá estava eu grudada no muro da escola ouvindo. Demorava muito a sair o resultado final porque algumas cidades vizinhas e menores também tinham Monteiro como sede eleitoral.

No dia da carreata da vitória eu me arrepiava de ver todas aquelas pessoas comemorando nas ruas. A gente venceu! – eu pensava. Leões, jacarés e gatos foram pintados em faixas de tecido representando os números correspondentes aos candidatos no jogo do bicho - 16, 12, 56. Nos desenhos, era um maltratando o outro, de acordo com o resultado. Significava uma agressão para eles, mas eu lia a situação toda como muito lúdica e instrutiva.

Detalhe importante: o grande vencedor era o PDS, partido que tinha se formado a partir da Arena, cujos integrantes eram donos de infinitas terras, fazendeiros, militares, políticos biônicos... O povo mais do mal da política brasileira de todos os tempos. Aquele era o primeiro certame depois que a Arena mudou de nome. É a prova de como a pessoa pode aprender uma coisa certa pelo caminho errado. Eu simplesmente aprendi vendo a participação do meu pai que, mesmo não sendo do lado endinheirado, era filiado ao partido e ainda hoje se mantém seguidor do PFL.

O tempo passa, as convicções mudam, até deixam de existir, mas a gente - ele e eu - discute muito sobre pessoas, candidatos, idéias, histórias, mandatos e jogo do bicho, que ele sabe tudo e eu não consigo decifrar – dezena, centena, milhar...

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Sonhei que estava numa festa e não via a decisão Santa Cruz x coisa. Perguntava ao pai de Fábio sobre o resultado e ele dizia: "A coisa empatou 1 x 1, aos 54(!) do segundo tempo." Só o pai!

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

pacote de abril brincando de casinha? tinha que ser tu mesmo, a criatura mais ligada e singular do sertão nordestino!

10 abril, 2006 11:42  
Anonymous Anônimo said...

pacote de abril brincando de casinha? tinha que ser tu mesmo, a criatura mais ligada e singular do sertão nordestino!

10 abril, 2006 11:43  

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