Vôo sem resposta
Cedinho no rádio a notícia dizia que um homossexual tinha sido empurrado, sem roupas, do décimo quinto andar do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE. Pensei: mais um. Para mim, mais do que claro, não havia empurrão algum na história. Resumindo -e reduzindo- era outro caso de suicídio no prédio fadado ao conhecimento e à perturbação dele decorrente.
Um pouco mais tarde, outros detalhes nos jornais impressos. Zoltan desistiu, jogou a toalha e saltou despido para o encontro com o nada. Fiquei muito comovida.
Não sei da opção sexual dele, na verdade falei algumas poucas vezes com ele. Figura bem conhecida pelos contemporâneos no curso de comunicação, por causa do sotaque húngaro e dos grandes óculos com lentes grossas. Lembro que em uma oportunidade, nós colegas rimos bastante porque ele conhecia bem direitinho algumas particularidades relativas a Elis Regina e Luiz Gonzaga & Zé Dantas. Parecia um nativo falando.
Depois, percebemos que se algo o interessava, era motivo de uma exploração exaustiva. Profundidade. Talvez fosse isso que ele buscava quando vivia assistindo aulas como ouvinte nos cursos de filosofia e ciências sociais. O que o fez atrasar a comunicação e adiantar o lado melancólico e contemplativo da vida.
Semana passada, o vi chegando à universidade e pensei que estivesse vinculado a algum mestrado, por causa de tanto tempo passado desde a graduação e também pelo perfil do saber inquieto. Como sempre, andava desequilibrado carregando mais de três livros nas mãos e uma mochila grande nas costas. Nada de pós. Estava cursando artes cênicas. Ainda no mesmo prédio das comunicações que não responderam às suas questões.
As respostas não viriam. E nem vêm.
Pelos depoimentos dos seguranças, os elevadores estavam desligados na madrugada. Significa que ele ainda percorreu todos os degraus até o alto do prédio. Refletindo. Mais uma chance aos pensamentos. Nada.
Voou somente com o corpo absoluto.
Um pouco mais tarde, outros detalhes nos jornais impressos. Zoltan desistiu, jogou a toalha e saltou despido para o encontro com o nada. Fiquei muito comovida.
Não sei da opção sexual dele, na verdade falei algumas poucas vezes com ele. Figura bem conhecida pelos contemporâneos no curso de comunicação, por causa do sotaque húngaro e dos grandes óculos com lentes grossas. Lembro que em uma oportunidade, nós colegas rimos bastante porque ele conhecia bem direitinho algumas particularidades relativas a Elis Regina e Luiz Gonzaga & Zé Dantas. Parecia um nativo falando.
Depois, percebemos que se algo o interessava, era motivo de uma exploração exaustiva. Profundidade. Talvez fosse isso que ele buscava quando vivia assistindo aulas como ouvinte nos cursos de filosofia e ciências sociais. O que o fez atrasar a comunicação e adiantar o lado melancólico e contemplativo da vida.
Semana passada, o vi chegando à universidade e pensei que estivesse vinculado a algum mestrado, por causa de tanto tempo passado desde a graduação e também pelo perfil do saber inquieto. Como sempre, andava desequilibrado carregando mais de três livros nas mãos e uma mochila grande nas costas. Nada de pós. Estava cursando artes cênicas. Ainda no mesmo prédio das comunicações que não responderam às suas questões.
As respostas não viriam. E nem vêm.
Pelos depoimentos dos seguranças, os elevadores estavam desligados na madrugada. Significa que ele ainda percorreu todos os degraus até o alto do prédio. Refletindo. Mais uma chance aos pensamentos. Nada.
Voou somente com o corpo absoluto.


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