Curta da vida curta
Close em homem usando chapéu de aba larga e sobretudo. É tarde da noite e ele caminha sem pressa em direção ao corpo estendido no asfalto do caminho entre Monteiro e Sertânia. No detalhe, seus pés não tocam o chão. Ele se reconhece naquele ser que acabara de perder a vida, sozinho, em uma manobra mal calculada na moto que pilotava.
Corta para o tribunal.
Pouco tempo antes, ele comemorava no fórum de justiça a sentença do seu julgamento na qual o juiz concedia a liberdade que nunca chegou a ter. Vivia fugindo de si e daqueles que um dia poderiam fazer justiça com as próprias mãos. Ele sabia. Um dos seus lemas era o mesmo dos justiceiros das caatingas: não sei por que estou matando, mas quem morre sabe o que fez. E assim alugava suas mãos para que outros depositassem nelas a sua culpa.
Corta para casa no sítio.
Muitos familiares o conheceram, outros tantos ofereceram ajuda. Mas ele sentia falta e procurava o ombro do tio na casa grande da zona rural. Ali, afastado de tudo, refugiava-se nas madrugadas. Em uma dessas oportunidades a casa estava cheia de crianças passando férias. Verônica era uma delas e ouviu tudo. Ele bateu na porta e se identificou. Logo se fez uma pequena agitação nos quartos avisando o que se passava e solicitando silêncio de todos.
Fade out.
Abria os olhos e não enxergava nada na escuridão. Um abrir de porta acolhedor o recebeu. À luz de um candeeiro sobre a mesa, ele e o tio falavam longamente. Antes do amanhecer eles se despediam e davam lugar a mais outros serviços dele. A menina guardava somente uma voz bonita, bem colocada, e alguma solidariedade por aquele de quem nunca viu o rosto encoberto metade pela gola alta de uma capa longa, metade pela aba do chapéu. Era o que ela imaginava e somente comprovaria caso olhasse por uma fresta da porta do quarto do meio.
Passagem de tempo.
No feriadão da independência, em 2007, a mãe partiu ao encontro dele. Caso tenham direito a encenar uma Pietá árida.
Corta para o tribunal.
Pouco tempo antes, ele comemorava no fórum de justiça a sentença do seu julgamento na qual o juiz concedia a liberdade que nunca chegou a ter. Vivia fugindo de si e daqueles que um dia poderiam fazer justiça com as próprias mãos. Ele sabia. Um dos seus lemas era o mesmo dos justiceiros das caatingas: não sei por que estou matando, mas quem morre sabe o que fez. E assim alugava suas mãos para que outros depositassem nelas a sua culpa.
Corta para casa no sítio.
Muitos familiares o conheceram, outros tantos ofereceram ajuda. Mas ele sentia falta e procurava o ombro do tio na casa grande da zona rural. Ali, afastado de tudo, refugiava-se nas madrugadas. Em uma dessas oportunidades a casa estava cheia de crianças passando férias. Verônica era uma delas e ouviu tudo. Ele bateu na porta e se identificou. Logo se fez uma pequena agitação nos quartos avisando o que se passava e solicitando silêncio de todos.
Fade out.
Abria os olhos e não enxergava nada na escuridão. Um abrir de porta acolhedor o recebeu. À luz de um candeeiro sobre a mesa, ele e o tio falavam longamente. Antes do amanhecer eles se despediam e davam lugar a mais outros serviços dele. A menina guardava somente uma voz bonita, bem colocada, e alguma solidariedade por aquele de quem nunca viu o rosto encoberto metade pela gola alta de uma capa longa, metade pela aba do chapéu. Era o que ela imaginava e somente comprovaria caso olhasse por uma fresta da porta do quarto do meio.
Passagem de tempo.
No feriadão da independência, em 2007, a mãe partiu ao encontro dele. Caso tenham direito a encenar uma Pietá árida.


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