segunda-feira, janeiro 28, 2008

Evoé!


O grêmio crítico-lítero-recreativo-anárquico-armorial-dançante-pós.new.pop.retrô está na rua. Oi?! E alguma hora o bloco foi retirado de lá? Permanece.
"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu."
Clarice Lispector - dizendo como ela, menina, via a festa da porta de casa.
Amo-te, bela Clarice.

domingo, janeiro 20, 2008

Homenagem, influência & persuasão


As ruas dos focos de folia no Recife estão começando a receber decoração para o carnaval deste ano. São figuras coloridas inspiradas na obra de Abelardo da Hora, um dos homenageados da festa pela prefeitura. Os outros são Hugo Martins e Ademir Araújo. O primeiro sempre trabalhou incansavelmente na disseminação do frevo, para que o ritmo predomine também fora da época do carnaval. Pode-se dizer o mesmo do segundo, mas uma questão importante é relacionada ao maestro Araújo: ele é crítico ferrenho do frevo jazzístico que vem sendo altamente elogiado por aqui e tem se expandido para outros lugares do Brasil. Faz sentido. Para quem nunca viu uma orquestra de periferia tocar, por exemplo, a referência de frevo passa a ser completamente essa. Olha aí a questão.

Mas voltando a Abelardo, ou vovô, como a gente sempre chamou. Uma parte da minha turma de faculdade conheceu Abelardo da Hora bem de pertinho, dentro da casa e do ateliê, quando íamos fazer trabalhos em grupo, das mais diversas disciplinas, com Rodrigo, neto dele. Ele sempre tinha algo para vir comentar junto da gente. Adorava fazer uma graça e sair ainda ao som das gargalhadas.
A gente sabe de todas as curiosidades que contam sobre vovô nas matérias por aí. Uma delas se refere a Francisco Brennand, de quando Abelardo foi morar no Engenho da Várzea e o desvirtuou da carreira de bom moço pelos rumos do direito, para torná-lo artista plástico.

Por minha conta, ouso acrescentar mais: aposto que foi vovô quem influenciou a característica erótica tão marcante na obra de Brennand.

Enquanto construo elementos para provar a minha tese, deixo umas linhas de Xico Sá.

“Uma das coisas mais lindas do mundo é um velho enxerido. O enxerimento como uma safadeza que nos mantém crente na existência. (...)
O enxerimento lírico de Abelardo da Hora, que grande homem, quase Deus a tirar do barro outras costelas, e que amor à sua própria dama, que magrinho com amor de sobra, que olho aceso feito brasa, que chama, como na sua canção predileta de Capiba, com letra de outro velho enxerido, o farto Ascenso Ferreira.
Andava com certo fastio do mundo quando vi da Hora na tevê, num programa da Globonews, merecida homenagem a um dos nossos maiores escultores, da Hora, 82 anos, mas com uma fome de viver da gota, da Hora com um olhar apaixonado para as mulheres, todas que apareçam à sua frente, da Hora cantando lindamente a repórter, da Hora com olhos marejados por uma existência de solidariedade aos lascados e devoção às fêmeas do universo.
E a vontade de fazer novas coisas desse homem? Meu Deus, dê-lhe uns dois séculos e meio de vida, ele merece, e quando chegar aos 250, meu Deus, dê mais um chorinho, repare como ele é comovente, repare como ele amassa as costelas do barro, repare como ele parece Deus fazendo mulheres.”
Muito sobre Abelardo aqui: http://www.iah.org.br/

terça-feira, janeiro 15, 2008

Falando para o mundo

Há uma semana a propaganda nova da coca-cola zero vem me provocando. Um cenário muito escuro, com duas línguas, parecendo monstros gosmentos, dialogando com um olho. As duas línguas tentam equilibrar uma garrafa do refrigerante para bebê-lo, quando um olho vaidoso se aproxima e puxa conversa. O olho tem umas perninhas tipo as dos elefantes de Salvador Dali e fala para as línguas que não vão conseguir tomar o líquido porque a palavra zero está escrita na garrafa e elas não podem ver, pensam que é coca normal e tal. No que elas respondem que ele quer também por isso está com inveja, é um olho gordo e ele se defende dizendo que é até magrinho...

O texto é todo dublado; sendo as línguas por Evandro Mesquita e Chorão (Charlie Brown Jr) e o olho por Miguel Falabella. O comercial é resultado de uma ação global feita pela Coca: criada pelo escritório norte-americano da agência Wieden+Kennedy (holandesa e americana), animação produzida na Suécia e adaptada para o Brasil pela McCann Erickson. Ou seja, cerveja. Não, coca-cola zero.

Mas, porém, contudo, todavia... O resultado deve ser tão nórdico que o chiste fica meio perdido por aqui. Ficou noir demais, as interpretações até fazem uma diferença enorme, mas faltou um tempero dos trópicos tórridos. Não é ruim, é provocador, diferente, estranho. Cheirado. Chegar a colocar a campanha na rua é mérito da criação e principalmente do aprovador.

http://www.portaldapropaganda.com/vitrine/tvportal/2008/01/0003

domingo, janeiro 06, 2008

Miragem de rei


Hoje é dia de santo reis, na música de Tim Maia e na paródia do Bloco Quanta Ladeira: hoje é dia de Nando Reis. Hora de tirar tudo do Natal que ornamentou a casa nos últimos dias. Da minha própria parte permanece do mesmo jeito, igualzinho ao ano inteiro, sem ornamentos.

Quem sabe não seria hora de ligar para avisar a minha prima que pode guardar a árvore de Natal. Sim, porque já aconteceu da decoração entrar pelo mês de março afora, e quando foi perguntada, ela disse “árvore? Que árvore? Nem tinha visto que tava aí”. É, acontece.

Quinze dias atrás, parados em um sinal de trânsito em Campina Grande, presenciamos a imagem surreal de reis magos atravessando a rua. De verdade. Vestidos com ricas mantas e turbantes, os caras passaram bem devagar pela faixa montados em camelos ou dromedários, ou um animal parente desses aí, comuns no deserto. Achei que tava vendo coisas.

De vez em quando eu vejo coisas.