sábado, janeiro 28, 2006

(Sem título) ou Da recaída

"As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se eu não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de uma história que é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar - uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco desabar pelo despenhadeiro as minhas mais altas geleiras. Assim, pois, não falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer."
Clarice Lispector

terça-feira, janeiro 24, 2006

Rumo às brenhas pernambucanas

Salgueiro – o time e a cidade – recebeu o Santa Cruz para mais uma rodada do primeiro turno do campeonato pernambucano de futebol. Partida televisionada, mas acompanhei naquele esquema de ouvir a narração do rádio e deixar a televisão muda a maior parte do tempo.

A graça de ver os jogos do interior pela TV é reforçar o retrato semelhante das cidades e do clima do sertão. Mostram um céu que só de ver já dá para sentir o ambiente melancólico de início de tarde quando o sol castiga o chão e as pessoas nem conseguem respirar tal o mormaço. Para mim é uma das horas mais tristes, quando poucos se arriscam fora de casa e o tempo se arrasta. Nada acontece. A terra pára.

Outros detalhes que vazam das imagens do Estádio Cornélio de Barros (será que alguma mãe ainda batiza o filho de ‘cornélio’?) são as construções de pequeno porte, muitas árvores e a indefectível torre da igreja ao longe. No campo, as pessoas acompanham o certame coladas ao alambrado. Anunciam pelo rádio que o número máximo ali é de 4.500 espectadores. Suponho que esse deve ser o motivo de não haver tropa de choque ou fosso entre as arquibancadas e o gramado. Qual gramado? Esse passa longe de ser aquele tapete homogêneo das apresentações televisivas da maioria dos jogos.

Ao final, Zé do Carmo vem nos dizer que o Salgueiro – Carcará do Sertão – se saiu melhor justamente por causa do gramado ruim ao qual o Santinha não está acostumado. Como diz a belíssima e imortal música de João do Vale, “carcará pega, mata e come”. Digo mais: e tira a invencibilidade coral.

Ainda bem que o Santa Cruz, sendo da Série A, não vai se preocupar com times de interior. O Mais Querido só quer saber dos enfrentamentos que virão: São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Goiás, Flamengo, Vasco, Grêmio...

:: ::
As câmeras até tentaram evitar, mas o destaque frontal na camisa dos jogadores do Salgueiro propagou nitidamente, por pelo menos uns 60 minutos, o nome da Banda Limão com Mel, filha da terra.

:: ::
E a camisa rosinha de Givanildo Oliveira?

:: ::
Salgueiro, Mirandiba, Serra Talhada, Exu, Serrita, Araripina. Um mundão de cidades vizinhas que me mostrou ao menos um representante de cada lugar desses nos últimos anos. Pessoas inteligentes, fortes, batalhadoras que se acotovelam para garantir seu espaço em Recife e se revelam amigas do coração.

domingo, janeiro 22, 2006

Várzea. Sempre.



Quem dera ser um caracol e carregar a minha própria casa por aí.

:: ::1
- Alô?
- Sobre esse anúncio do apartamento...
- Sim. Ele fica no edifício Módulo. Você sabe qual é?
- Sei sim.
(A voz da mulher vai a BG e eu já nem escuto o resto.)
- O aluguel fica por ... reais, o condomínio ... reais, água...
- Obrigada.
:: ::2
- Sim, posso ir com a chave para você ver.
- Até lá, então.
- Ele foi desocupado há pouco tempo. Depois foi todo pintado novamente.
- Sei. Como é a vizinhança?
- Eu não sei te dizer com certeza, mas é bom perguntar isso porque por aqui tem uns apartamentos que são casas de massagem.
- É verdade.
:: ::3
- Boa tarde.
- Pode entrar. A chave não está aqui agora. Mas veja o meu que é semelhante ao outro. A gente não quer grupo de pessoas para dividir porque basta uma desorganizada para atrapalhar as outras.
- É grande mesmo. A senhora é a síndica?
- Sou. O índice de inadimplência é muito alto. E falta água. Aqui só chega dia sim, dia não.
- Tá certo. Qualquer coisa, estou com o seu número.
:: ::4
- Tem um aqui no sétimo andar.
- Posso ver?
(Elevador altamente suspeito e só vai até o sexto.)
- Por aqui. São cinco por andar, mas esse fica só ele.
(Subindo as escadas.)
- Ele precisa de uns reparos, mas é ótimo.
- Muito obrigada.
:: ::
Os problemas são muitos: pisos de taco – criadouro de monstros avermelhados e eventualmente voadores - elevadores prestes a parar entre os andares, escadas sinistras, vizinhança suspeita, janelas sem grades, nada de área de serviço, lugar para secar roupa nem pensar, barulho infernal das ruas... E se os porteiros que estavam com as chaves antes fizeram cópias? (Esse pensamento nunca me deixou.)
:: ::
A Praça da Várzea tem palmeiras onde canta o sabiá.

domingo, janeiro 15, 2006

Autores, monumentos, livros, efeitos

Ainda são novidades na paisagem, nem criaram um pouquinho de musgo e já passou alguém para detonar com as estátuas de Clarice Lispector, Carlos Pena Filho e João Cabral de Melo Neto, inauguradas há menos de um mês nas ruas do Recife. A única que deu tempo visitar e ver direitinho antes do mala fazer o estrago foi a doidinha da Clarice, na Praça Maciel Pinheiro. Ela morou por ali e hoje fica sentada numa cadeira com uma máquina de escrever no colo, olhando para a fonte da praça. Tem uma luminária do lado e um cigarro na mão esquerda. Tinha. Pois quebraram justamente o baseado da mulher. Aposto que ela veio da Ucrânia só para chegar mais perto de Belém do São Francisco, Cabrobó e Floresta, porque tava ficando muito caro importar marijuana daqui para a antiga União Soviética.

Há um tempo, quando estava quase terminando a lista de publicações dela, parei de ler. Sério, parecia que eu não andava pisando no chão. Era uma coisa que me levava para um mundo paralelo e não trazia de volta quando fechava o livro. Impressionante. Amo Clarice com 100% do meu coração. Tenho um livro dela que ganhei de um amigo há séculos com a dedicatória: “Para Vequinha linda. Numa ladeira de São Paulo eu te encontrei”. É o meu preferido.

No caso de João Cabral era uma questão de semelhança da história do Severino com a minha, totalmente retirante naqueles dias de leitura. Até hoje as margens de tudo me encantam, até as dos rios. Limite e transbordamento, o duo que nos acompanha constantemente. Li Morte e Vida Severina e algumas outras coisas que encontrei, mas nunca com propósito de dissecá-lo como a necessidade que Clarice me despertava. Ele está lá na Rua da Aurora olhando para o rio e teve a praça ao redor do seu banquinho pichada.

Aí larguei essa vida de reflexão profunda (é muito difícil) e andava pelas ruas de Recife recitando (em pensamento, se fosse hoje era em voz alta mesmo) Carlos Pena Filho.
Então pintei de azul os meus sapatos
Por não poder de azul pintar as ruas
Depois vesti meus gestos insensatos
E colori as minhas mãos e as tuas

O cara do Desmantelo Azul, título do soneto que tem essa estrofe acima, está na Praça da Independência e levaram um dedo dele, tadinho.

Desde a inauguração que eu pensava no dia dos primeiros ataques. É quase óbvio quanto existir. Não devia ser assim, mas se os monumentos existem, eles vão ser agredidos. É cruel assim mesmo, é sem informação assim mesmo, é sem educação assim mesmo.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Lua cheia - 14/1, 6h49 a 22/1, 12h14


Toda lua cheia é a mesma coisa e, nos últimos tempos, o período tem coincidido com a TPM. Aí fica tudo assim:
.O que eu gosto, passo a adorar exageradamente.
.O que me comove faz chorar durante horas.
.O que me irrita toma proporções do muito além do insuportável.
.O que faz falta se agiganta.
.O que sacia tem que ser sem limite.
.O que é surpresa: "oh, eu NUNCA vi isso!!".
.O que já foi visto é tratado com exacerbado desdém.
.O que causa medo é de um terror sem precedentes.
.O que eu amo me toma.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Futebol não rima com acidente

Começou o campeonato pernambucano de futebol de 2006. Impossibilitada de ir ver o Santa Cruz jogando ao vivo fiquei de casa ouvindo rádio e, claro, sofrendo. Sim, porque ouvir e imaginar é muito mais doloroso do que ver o lance lá no estádio. Cada um com a sua emoção.

Entrariam em campo a barbie, a coisa e o Santinha todos ao mesmo tempo, ontem, domingo, 16 horas. Para os jogos, está valendo a regra do Futebol Solidário, um programa que permite troca de ingresso por um quilo de alimento. Como ninguém quer perder a oportunidade, e também não tem dinheiro, muitos (mas muitos mesmo) optam por essa alternativa.

Comecei a ouvir o rádio logo cedo da tarde. Não sei se foi exagero dos locutores, mas quando falaram do tumulto que se formou num dos locais de jogo já comecei a prestar mais atenção no que se passava. Eles estavam em polvorosa, narrando cenas as mais tristes. Torcedores se debatiam para entrar num campo de pequeno porte, sem capacidade para todos eles e, menos ainda, estrutura de acesso para tanta gente. Ali se enfrentariam Estudantes e Sport.

Fiquei particularmente tocada pelo depoimento de um médico experiente em partidas de futebol dizendo nunca ter visto coisa parecida. Ele falava de dois adolescentes em estado grave que tinham fratura na cabeça e estavam tendo convulsões. O que era somente uma idéia na minha imaginação se confirmou quando vi as reportagens sobre os jogos, pela televisão, à noite. Bichinhos dos meninos que tentavam chegar ao campo para assistir à coisa jogar. Chorei.

Hoje, um dos jornais locais entrevistou um dirigente da Federação Pernambucana de Futebol sobre o acidente gravíssimo acontecido no jogo em que saíram feridos, além dos dois meninos, quase 20 pessoas. Ele defendeu a instituição, falou da assistência que será dada aos feridos e justificou o local escolhido para o jogo.

O curioso dessa história toda foi um rosto de contentamento que apareceu na reportagem. Enquanto estavam sendo gravados os corredores do hospital, uma mulher que não deu depoimento foi apresentada na matéria como assistente social da Federação. Na fala desse dirigente ressaltou um detalhe: “a assistente social foi contratada pela Federação e vai acompanhar as famílias dos dois rapazes”. Oxente! A mulher surgiu por causa dos problemas? Se não foi, é o que aparenta e talvez explique aquele ar feliz dela quando deveria estar, se não abalada, pelo menos solidária com os garotos. É a tristeza de uns, fazendo a felicidade de outros.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Estardalhaço de Pitbull com efeito de Pequinês


Existem mais coisas erradas no CD/DVD que registra a parceria entre Ana Carolina e Seu Jorge (Ana&Jorge, Sony, 2005) do que a palavra ‘pequenez’ no título da faixa cinco, quando eles tentavam se referir a pequinês, raça de cachorro.

Como conversa de palco (e de bar) o disco é excelente. Mas como surgimento de coisas novas na música brasileira, da forma que foi alardeado, fica no ouvinte/telespectador a sensação de que todo o trabalho foi feito a partir de uma cervejada, quando alguém ouviu um papo e resolveu bancar o projeto. Aqui pra nós, o surgimento de tons, versos e melodias interessantes num encontro não tem nada de excepcional, muito menos em se tratando de músicos de tamanha competência.

Tinha cheiro de retorno monetário no ar e isso foi percebido antes da idéia ser colocada na rua. Nada soa tão pouco acidental. E não é. Existe um propósito, sim. Tanto que até agora foram comercializados 150 mil unidades ao todo, 100 mil CDs e 50 mil DVDs, números que já renderam discos de platina para a dupla. Nada mal para uma aventura musical puxada por É Isso Aí, versão de Ana Carolina para Blower´s Daughter (Damien Rice), do filme Closer. (Por sinal, bem mais emocionante do que a também versão feita da mesma canção por Zélia Duncan e interpretada por Simone.)

O disco traz ainda músicas das carreiras solo de Ana Carolina e Seu Jorge, além de dois textos de Elisa Lucinda, musicados pela dupla. Aí é que está o detalhe, confirmando a minha tese: não existe novidade. Quem acompanha os dois artistas possui, pelo menos umas duas vezes, o repertório escolhido.

É. Eu sei. Morre o artista, morre quem critica e a obra fica. Ainda bem. O CD/DVD tem grande mérito de mostrar ao público uma boa conversa que, de outra forma, ficaria registrada somente na memória dos convidados para uma reuniãozinha dos dois em alguma granja nos arredores do Rio de Janeiro. Dia desses, quando da passagem de Seu Jorge pelo Brasil...