domingo, julho 30, 2006

Uh é tricolor!!


“A gente viu ganhar!” Foi assim que Marta comemorou o apito final do jogo de hoje. No dia dessa foto aí, por exemplo, saímos do estádio com uma tristeza sem fim. Poucos torcedores por lá, discussões acaloradas na arquibancada sobre quem devia sair do time, nada dava certo.

Hoje foi tudo diferente. Casa cheia para ver um jogão contra o “timinho ê-ô”. Durante a semana nos programas de rádio só se falava “Santa Cruz enfrenta o milionário Corinthians”. Agorinha mesmo, no Fantástico, Léo Batista informou aos telespectadores que o gol do Santa foi devido a uma saída errada do goleiro lá deles. Então tá.

Gol de Márcio Alemão. Só pelo apelido já dá para ter idéia do grau de cabelo amarelo e olho azul do cidadão, mas o senhor do meu lado insistia em chamar o cara de Negão. Toda vez que ele pegava na bola esse homem dizia “agora, Negão”, “vai, Negão”, “gol do Negão”. Achei uma graça esse tratamento do torcedor.

O que importa é que foi lindo ver o Santinha enfrentando os paulistas grandões nutridos e saindo da zona de rebaixamento. Carlitos Tevez, atacante da seleção argentina que foi para Copa do Mundo e tudo, ficou imobilizado por Valença, leão de chácara da nossa defesa. O argentino ainda chegou a fascinar os guris mascotes do tricolor, tirou umas fotos com eles na abertura do jogo e pronto. O resto foi só tentar o gol e ser parado mesmo.

Que perdurem esses dias de glória no Mais Querido sem se deixar intimidar por time nenhum.

sábado, julho 22, 2006

Parabéns para ele

Ele é o homem mais fino, gentil e educado que eu conheço. Não tem um pingo de paciência com ignorâncias em geral. Por outro lado, sabe ser compreensivo com desconhecimentos em geral também. Já se ausentou de várias conferências por causa de uma palavra errada dita pelo palestrante. “Vi quando você embora.” “Viu quando ele/ela disse aquele absurdo? Foi por isso.” Sim, eu não sei me dirigir ao meu próprio pai usando senhor porque fica muito distante. Sendo ‘tu’, ele se torna muito mais íntimo, ali, de igual para igual.

Hoje é o aniversário dele, um pai que tem nos filhos o cúmulo da sua realização. O perfeito coruja. Um dia apareceu uma grafitagem na frente da casa de conhecidos nossos com a inscrição “Aqui tem fera” porque um dos filhos de lá tinha passado no vestibular e tal. Ele chegou em casa comentando que ia fazer também no nosso jardim, mudando o texto para “Aqui SÓ tem fera”.

É, e sempre foi, um fofo.
Saúde! Hoje e Sempre!!!

domingo, julho 16, 2006

Do direito de perambular

“A ‘boa vida’ é a vida em movimento, mais precisamente o conforto de ter confiança na facilidade com que é possível mover-se caso ficar não mais satisfaça”. Linhas, como belas flores, colhidas em Globalização – as conseqüências humanas, de Zygmunt Bauman. Leitura da minha recomendação ampla, geral e irrestrita.

Se Bauman trata do assunto visualizando o mundo inteiro, que diria se conhecesse a nossa realidade e falasse se dirigindo somente ao Brasil? Aqui mesmo, onde diferenças regionais constroem barreiras inicialmente em tom de brincadeira, mas sempre postas a sério nas relações pessoais e profissionais, e continuam permeando o nosso ‘mover-se’.

Nos últimos dias, alguns acontecimentos mostraram que continuam fortes certas distinções entre as pessoas, mesmo depois de tantas idas e vindas de brasileiros a perambular por entre os seus estados. A Folha de S.Paulo publicou uma matéria apontando as dificuldades dos paulistas vivendo em Florianópolis, vítimas de pichações e hostilidades na UFSC.

Inscrições em portas de banheiro expõem o que os nativos chamam de "invasão": "Os paulistas são os nordestinos de Floripa", alguém escreve. "Só que eles só dominaram favelas e nós vamos dominar tudo", alguém responde.

Quem responde é tão vítima quanto os nordestinos, mas já carrega na tinta também a sua distinção. E vai se formar lá mesmo, na UFSC, para depois ter brilhantes idéias como a de uma agência de propaganda que criou um núcleo low income para estudar a classe C/D. Assim mesmo, uma classe no meio do caminho entre ser nenhuma das duas.

O site da agência diz que o mergulho na classe será feito “buscando vivências que vão além de informações científicas”. Vão fazer matrícula em cursos de cabeleireiros, freqüentar as periferias e as reuniões das vendedoras porta-a-porta, para registrar e fotografar cada experiência. Um verdadeiro safári. Constava ainda nessas atividades visita ao Centro de Tradições Nordestinas e fornecimento de informações de uma agência parceira sediada no Nordeste, retirado do site após algumas discussões.

Quando se fala em low income o Nordeste é a grande vedete dos desinformados brasileiros mesmo. E prossegue em outras opiniões como uma matéria publicada no Bluebus, sobre o novo site do Clio. A idéia do site é baseada em uma suposta Creative Liberation Intelligence Organization que procura trabalhos de pessoas que “pensem de maneira perigosa, inovadora, não-convencional em relação à mídia e, certamente, adotando as últimas tecnologias”, seriam os criativos de uma chamada Próxima Onda.

A autora fala do conteúdo, da repercussão, e escorrega no próprio preconceito: “para ver e se incomodar com a ferramentinha chamada IdeaTracker, ou, buscador de idéias. Mostra um mapa-múndi com áreas marcadas de onde estariam vindo as idéias da tal Próxima Onda. A área brasileira marcada é bem pequena e, surpreendam-se, apesar do mercado publicitário brasileiro estar concentrado no Sudeste, a única área que aparece pintada no IdeaTracker é o Nordeste. Tudo bem, que tipo de idéia será que a tal organização secreta está buscando mesmo?”.

Perguntaríamos nós, que estamos tão acostumados a brincar de comparar sotaques. Por que, minha querida, “se incomodar” ou “surpreendam-se”? Quem sabe o Sudeste tenha saturado e viva das mesmas idéias há décadas? Talvez esteja no Nordeste, com todas as limitações a que está condicionado, esse jeito perigoso, inovador e não-convencional de fazer as coisas e mostrá-las ao mundo, até mesmo sem passar pelo Sudeste.

Perambulemos, pois, lembrando que somos e carregamos muito mais do que um local onde provisoriamente fizemos uma parada estratégica.

quinta-feira, julho 13, 2006

Apagaram tudo

Chegando a minha casa na hora de sempre, a passadinha na feira para comprar uma “raiz” para o jantar. De sempre. “Boa noite, senhora”, manda de lá o dono da banca. Com esses cumprimentos me vejo como uma pessoa altamente responsável. Vou me aproximando da solene residência e a lua, que já estava em destaque, torna-se luz principal por entre as caixinhas de concreto. Tudo às escuras. Faltou energia, e agora?

Zero oitocentos... Adoro ligar e dizer “eu sei que você não tem culpa, mas blá, blá, blá e ruansas and ruansas”. Desta vez nem precisou. O mocinho disse que tudo estaria resolvido dali a uma hora. Obrigada, então.

Velas. Sei que tenho aqui embaixo da pia e ... Argh! Nem mortinha. Se já pego as coisas ali cismada, à luz do dia, com medo dos monstros avermelhados, eventualmente voadores, imagina num breu desses? Deve ter escorpião, sucuri, jacaré.

E agora, de novo? Está tudo resolvido. Muda completamente a programação. Script é para ser alterado mesmo e a "raiz" fica para amanhã.

Ana: Alô?
Eu: E aí? Tá faltando energia na tua casa?
Ana: Não.
Eu: Alice foi dormir?
Ana: Está se preparando.
Eu: Chego já. Espera.

Cinco minutos depois...
Eu: Oi.
Alice: Hoje é domingo?

sexta-feira, julho 07, 2006

Medianas

Não precisa variar muito procurando resultados dos institutos de pesquisa para entender a idéia principal sobre o público de novela. Focando na Rede Globo, principalmente, por ser a grande produtora mundial do gênero, sabe-se que a categoria ‘telespectador de novela’ é bem mista e o negócio se mistura mais ainda considerando o folhetim das 19 horas, a famosa novela das sete. Faixa etária, renda, idade, preferências, consumo. Não se iluda quem pensar que está fora dos mais esmiuçadores mapeamentos de mercado. E o perfil do horário resvala ainda para os telejornais exibidos ali pelo mesmo horário e dá tudo numa grande salada. Quem acompanhou a discussão entre Laurindo Leal Filho, sociólogo e jornalista, professor da ECA/USP – e William Bonner, viu que a proposta do Jornal Nacional, por exemplo, é ser um programa para um senhor médio, comparado ao Homer Simpson.

Mas esse assunto todo até agora não é para chegar aos detalhes dos telejornais. Na verdade foram algumas falas, de seqüências bem curtas, que mereceram um olhar, ou um ouvir, mais detalhados.

Eis que surge Luís Melo, em Cobras & Lagartos, vestido de mulher e maquiado, interpretando um travesti que teve filhos, no melhor estilo Almodóvar em Tudo sobre minha mãe. Na primeira aparição, num diálogo a respeito da sua opção sexual, plano fechado somente no rosto, ele praticamente fala para quem está em casa que não sabe como as pessoas vêem, tiram conclusões e definem algo que nem ele entende bem em si mesmo.

Ainda na mesma novela, a galega fatal Leona (Carolina Dieckmann) se dirige a um esperançoso ficante dela com o maior desprezo para dizer o quanto o acha médio. Irritada com a cara média, o jeito médio, a vida média que o fulano lá tem. Assim, repetindo a palavra mesmo.

Adiantando um pouco o relógio para a trama das nove. Sim, porque ‘das oito’ é só o nome. Rebeca (Carolina Ferraz), dona da agência de modelos, conversa com uma das suas seguidoras aconselhando-a a se descolar do mundo classe média ao qual pertence. De parar de prestar atenção na vida das pessoas e deixar de ser suburbana. Vez por outra ela repete que a menina é provinciana.

Pois bem. A indústria TV Globo, que produz essas mesmas pessoas médias e cultiva o espírito suburbano em altos laboratórios da sua audiência, olha bem nos olhos desses seres para fazê-los pensar sobre o que vêem na própria forma de encarar o mundo, os acontecimentos, as pessoas, as palavras e as coisas.

É claro que não se faz um novo tempo na produção televisiva, mas escritores que criam semelhantes situações em evidência com mais assiduidade já provocam oportunidades de apontar sugestões de estilos de vida para um público médio. Quem sabe até uma busca nos livros por respostas e discussões melhores. Eita, exagerei. Aí já estou querendo um pouco demais.