terça-feira, julho 24, 2007

Os Jecaps e o Pan

Marta conhece o estádio do Arruda, em Recife, e o Barradão, em Salvador. Ela tem aprendido a gostar de futebol. Recentemente foi ver um jogo em Belo Horizonte e, no espaço de uma tarde, adorou e disse que é outra realidade. “Só tem cadeiras”, comentou admirada.

Alguns jornalistas do Recife trabalhando na cobertura do Pan do Rio de Janeiro disseram que voltando a Pernambuco seria difícil se acostumar com os sucatões do futebol daqui. As imagens na TV mostram que o estádio novíssimo João Havelange, o Engenhão é mesmo um espetáculo.

O que diriam Marta e o pessoal do jornal sobre o Estádio José Inácio de Souza, em Monteiro? Lá é conhecido simplesmente como “o campo”. Tanto que a rua de acesso é chamada popularmente de Rua do Campo, ignorando-se o nome de algum cidadão que empresta a graça dele ao lugar.

Quando um gramado apresenta falhas, mas está razoável, o local onde fica o goleiro tem uma parte gasta. No caso do campo, vez por outra a gente vê um resquício de grama, nada que ultrapasse uns cinco metros quadrados, o resto é poeira. Casseta e Planeta hoje tira onda com o Tabajara Futebol Clube, sem saber que em Monteiro um time homônimo teve seus dias de glória ali mesmo no campo. Isso em um tempo que os globais nem deviam pensar em programa de televisão ainda.

Era o campo a grande sede dos Jecaps – Jogos Escolares do Cariri Paraibano. A festa maior do esporte daquela região. Claro que participei da cerimônia de abertura dos jogos, fazendo aquelas coreografias junto com um monte de meninas a dançar e evoluir usando um maiô e uma sainha minúscula. Devia ter pouco mais de dez anos, menos de 15.

Depois da cerimônia, seguia-se uma semana de esportes e rivalidades que sempre acabavam com alguma menina ferida pelas unhas das adversárias. Nas quadras ou fora delas. A grande máxima do esporte “o importante é competir” era totalmente inapropriada para falar naqueles dias. Do pescoço para baixo era canela em todas as modalidades.

Agora no Pan é muito engraçado ver esses jogos contra Cuba, quando a galera deixa de lado a simpatia pelo país para assumir uma rivalidade ferrenha. Nada de politicamente correto nas competições entre brasileiros e cubanos. Grande responsável por isso é o time feminino de voleibol, que desta vez ganhou de novo das brasileiras. A graça é ver, antes do pódio, a jogadora cubana fazer um gesto que o mundo inteiro sabe não se tratar de um afago: duas mãos espalmadas ao lado do rosto emoldurando um língua para fora. Tem coisa mais Jecaps?

Os caras devem ter planejado alto uma inscrição no Pan para viver na clandestinidade aqui. A verdade é que atletas cubanos simplesmente sumiram. Um repórter pergunta a uma esportista onde está o pessoal da delegação dela que desapareceu. Ela responde: pergunta a tua mãe. Bicha delicada.

Os inhos – Ricardinho e Bernardinho – com uma rusga mais do que explorada pela mídia, brigam no melhor estilo eu mando e você cai fora. Aí já é o vôlei masculino do Brasil mostrando o que ferve por baixo de tanta fama.

Também é um exercício interessante ver a mocinha do judô com a pior cara que ela pode fazer debaixo daqueles cabelos progressivos, urrando “Palhaçada, isso é uma palhaçada!” para os juízes das provas.

Gente de outras nacionalidades também perde a cabeça no esporte. Zidani? Mas só um continente cheio de sangue bom e quente ajuda a mesclar a idéia linda de tolerância e que todos somos irmãos neste mundo sem porteira.

domingo, julho 08, 2007

Benza-te Deus!


Vixe Maria! Deus e o Diabo na Bahia é um espetáculo baiano inspirado no conto A igreja do diabo, de Machado de Assis, e que está em cartaz há cerca de três anos, como diz o programa da peça. Ainda de acordo com o impresso, são mais de 30 profissionais envolvidos. No ingresso, duas linhas dizem que foi visto por mais de 150 mil pessoas.

Já pelo título percebe-se a famosa tensão entre o bem e o mal, do ar condicionado do céu e da quentura do inferno. Mas mais do que isso, é bom depreender da encenação a manha e a safadeza inerentes àquele estado, tão exploradas em livros, músicas, pinturas, esculturas.

Pode ser um olhar viciado da minha parte, admito, mas homens e mulheres têm um gestual diferente expresso em rebolados, em uma mão boba e, claro, na moleza da fala. Que eles não façam nunca as sessões de fonoaudiologia dos atores globais para falar carioquês. Até o Jackyson Costa que viveu um padre em uma novela da emissora, e interpreta o Deus na peça, é bem baianidade. Registre-se a bela forma dele, viu. Quase um Davi, de Michelangelo. No mais, uma realização para dar umas risadas e relaxar o juízo.

domingo, julho 01, 2007

Carona – a maior diversão

Desde a mais remota era sempre pensei que carona fosse o transporte do futuro. Ninguém pergunte qual. Mas é que ao me deslocar para a universidade de uma distância que vencia facilmente a pé, ficava pensando em como seria bem mais rápido para todo mundo se aquele povo todo, um só em cada carro, vindo da mesma direção, buzinando insandecidamente, se organizasse e andasse em grupos.

Ali pensava uma pós-adolescente sem considerar os compromissos individuais das pessoas depois das aulas.

Para o caso de viagens mais longas usufruí demais do recurso “vou também”. Não tanto no sentido de aventura, porque sempre agendei o bigu com pessoas da mais alta confiança.
A única vez que sentei mesmo à beira do caminho foi em Sertânia, a uns 15 minutos de carro de Monteiro, meu destino. Justamente em época junina. Era ano de Copa do Mundo de Futebol e estava acontecendo jogo do Brasil. Ao chegar à cidade, não tinha um pé de gente no meio da rua, muito menos os famosos transportes alternativos tão comuns entre as duas cidades.

O tempo passava e nada acontecia. Engraçado, é assim até hoje naquela região.

Quando começou a anoitecer foi batendo um medinho. Meio medo, é verdade, porque se não aparecesse ninguém, era só passar a noite na casa dos parentes de lá. Pára uma caminhonete. Era um senhor que conhece a família toda e morou na mesma rua que a gente, inclusive. Cheguei umas sete horas da noite, feliz e satisfeita já na carreata da vitória do jogo.

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São vários os episódios de ir dormir na casa de quem oferecia a carona, na noite antes da viagem. Uma delas, a sogra do ex-prefeito. Da melhor qualidade, Recife-Monteiro sem parar de maneira nenhuma. Difícil para quem dirige, mas é minha modalidade favorita.

Ao contrário de uma roubada sem noção quando fui dormir em uma granja em Moreno porque a família seguiria para Serra Talhada e me deixaria em Arcoverde. Negócio de muito futuro. Cheguei lá por volta das três horas da madrugada e, obviamente, não tinha um pingo de transporte. Esperar amanhecer, pelo menos. Que remédio?

Chica já me deixou em Caruaru, também no São João, à noite. Nessa época, uma tia estava morando lá e me deu abrigo até o dia seguinte.

O cúmulo foi viajar em cima de uma caminhonete até João Pessoa. Código de trânsito veio muito depois disso. Essa já foi voltando de Monteiro. Um boyzinho bem famoso aproveitava a carona também. Ele, eu e uma carga de caixas que a família transportava para a capital. Cenário perfeito para cair um toró. E caiu. Felizmente estávamos perto de um posto de gasolina e o motorista ficou lá um tempo “até estiar”, como nos explicou.

O guri desceu na entrada de Bananeiras, perto de Campina Grande, e eu segui. Ainda hoje ele me cumprimenta depois desse episódio.

Inúmeras foram as vezes em que o amigo padre Gabriel me levou. A mais inusitada foi quando chegou a Pesqueira e ele pegou uma estrada alternativa, passando antes em São Sebastião do Umbuzeiro para celebrar um casamento. Cerimônia realizada, noivos parabenizados, pé na estrada.

Sigo sempre. De caronex ou morrendo de medo dentro dos ônibus.